pesquisa-de-coronavirus-pandemia-conceito-de-epidemiologia_74855-5785.jpg

PÓS GRADUAÇÃO: Módulo 06 - SPESF EAD

EPIDEMIOLOGIA

EPIDEMIOLOGIA, MEDIDAS DE FREQUÊNCIA DE DOENÇAS, ENTRE OS PRINCIPAIS USOS DAS MEDIDAS DE PREVALÊNCIA ESTÃO E INDICADORES DE SAÚDE

 

1. EPIDEMIOLOGIA

Epidemiologia pode ser definida como a “ciência que estuda o processo saúde-doença em coletividades humanas, analisando a distribuição e os fatores determinantes das enfermidades, danos à saúde e eventos associados à saúde coletiva, propondo medidas específicas de prevenção, controle ou erradicação de doenças, e fornecendo indicadores que sirvam de suporte ao planejamento, administração e avaliação das ações de saúde” (ROUQUAYROL & ALMEIDA, 2013).

A epidemiologia congrega métodos e técnicas de três áreas principais de conhecimento: Estatística, Ciências da Saúde e Ciências Sociais. Sua área de atuação compreende ensino e pesquisa em saúde, avaliação de procedimentos e serviços de saúde, vigilância epidemiológica e diagnóstico e acompanhamento da situação de saúde das populações.

A epidemiologia tem como princípio básico o entendimento de que os eventos relacionados à saúde, como doenças, seus determinantes e o uso de serviços de saúde não se distribuem ao acaso entre as pessoas. Há grupos populacionais que apresentam mais casos de certo agravo, por exemplo, e outros que morrem mais por determinada doença. Tais diferenças ocorrem porque os fatores que influenciam o estado de saúde das pessoas se distribuem desigualmente na população, acometendo mais alguns grupos do que outros (MEDRONHO & BOCH 2009).

 

1.1 Início da Epidemiologia

 

Alguns autores indicam que a epidemiologia nasceu com Hipócrates na Grécia antiga. Numa época em que se atribuía as doenças, as mortes e as curas a deuses e demônios, o médico grego se contrapôs a tal raciocínio e difundiu a ideia de que o modo como as pessoas viviam, onde moravam, o que comiam e bebiam, enfim, fatos materiais e terrenos eram os responsáveis pelas doenças. Foi uma proposta revolucionária de se pensar o processo saúde-doença.

 

1.2 Aplicações da Epidemiologia

 

Imagem - Pirâmide de aplicações da epidemiologia

Imagem1.png

Conceitos básicos Epidemia, Pandemia e Endemia

Imagem2.png

De acordo com a epidemiologia se detém em populações inteiras ou em suas amostras para, a partir dos indicadores de saúde e outros dados epidemiológicos construídos através da coleta de dados e de sua análise por métodos estatísticos, realizar o diagnóstico de saúde, subsidiando a implementação de medidas de promoção da saúde e prevenção de doenças coletivamente (MEDRONHO, 2005; ROUQUAYROL e ALMEIDA FILHO, 2003).

Logo, a capacidade de aplicar o método epidemiológico é uma habilidade fundamental para todos os trabalhadores de saúde que tenham como objetivo reduzir doenças, promover saúde e melhorar os níveis de saúde da população, especialmente aqueles que trabalham na Estratégia Saúde da Família, que necessariamente precisam compreender o todo e as especificidades de uma área do conhecimento tão abrangente.

2. MEDIDAS DE FREQUÊNCIA DE DOENÇAS

 

  • Incidência e Prevalência

 

A incidência diz respeito à frequência com que surgem novos casos de uma doença num intervalo de tempo, como se fosse um “filme” sobre a ocorrência da doença, no qual cada quadro pode conter um novo caso ou novos casos (PEREIRA, 1995). É, assim, uma medida dinâmica

Captura de tela 2021-10-07 194544.png

Exemplo:

 

Imagine 400 crianças cadastradas na ESF e acompanhada durante um ano, foram diagnosticados, neste período, 20 casos novos da doença.

 

Cálculo da taxa de Incidência

Captura de tela 2021-10-07 200051.png

A prevalência se refere ao número de casos existentes de uma doença em um dado momento; é uma “fotografia” sobre a sua ocorrência, sendo assim uma medida estática. Os casos existentes são daqueles que adoeceram em algum momento do passado, somados aos casos novos dos que ainda estão vivos e doentes (MEDRONHO & BOCH, 2009).

 

Existem três tipos de medidas de prevalência:

 

  • Prevalência pontual ou instantânea: Frequência de casos existentes em um dado instante no tempo (ex.: em determinado dia, como primeiro dia ou último dia do ano).

 

  • Prevalência de período: Frequência de casos existentes em um período de tempo (ex.: durante um ano).

 

  • Prevalência na vida: Frequência de pessoas que apresentaram pelo menos um episódio da doença ao longo da vida.

 

Ao contrário da incidência, para medir a prevalência os indivíduos são observados uma única vez.

 

                        número de casos existente em determinado período

Exemplo:

 

Suponha que em determinada semana todas as crianças fizeram exames laboratoriais. Das 400 crianças participantes, foram encontradas 40 com resultado positivo para Ascaris lumbricoides

Captura de tela 2021-10-07 203629.png
Captura de tela 2021-10-07 201437.png

3. ENTRE OS PRINCIPAIS USOS DAS MEDIDAS DE PREVALÊNCIA ESTÃO

 

O planejamento de ações e serviços de saúde, previsão de recursos humanos, diagnósticos e terapêuticos.

Por exemplo, o conhecimento sobre a prevalência de hipertensão arterial entre os adultos de determinada área de abrangência pode orientar o número necessário de consultas de acompanhamento, reuniões de grupos de promoção da saúde e provisão de medicamentos para hipertensão na farmácia da Unidade de Saúde (MEDRONHO & BOCH, 2009; ROUQUAYROL & ALMEIDA FILHO, 2013). Ressalta-se que a prevalência é uma medida mais adequada para doenças crônicas ou de longa duração.

A incidência, por outro lado, é mais utilizada em investigações etiológicas para elucidar relações de causa e efeito, avaliar o impacto de uma política, ação ou serviço de saúde, além de estudos de prognóstico. Um exemplo é verificar se o número de casos novos (incidência) de hipertensão arterial sistêmica declinou depois da implementação de determinadas medidas de promoção da saúde, como incentivo a uma dieta saudável, realização de atividade física e combate ao tabagismo no bairro.

A partir de algumas variações do conceito de incidência, podemos chegar aos conceitos de:

Mortalidade: é uma medida muito utilizada como indicador de saúde; é calculada dividindo-se o número de óbitos pela população em risco. Estudaremos mais sobre essa medida na próxima unidade.

Letalidade: é uma medida da gravidade da doença, calculada dividindo-se o número de óbitos  por determinada doença pelo número de casos da mesma doença. Algumas doenças apresentam letalidade nula, como, por exemplo, escabiose; já para outras, a letalidade é igual ou próxima de 100%, como a raiva humana.

 

Frequências absoluto (Exemplo)

 

Houve 3 casos de hepatite em Rondonópolis. Se foram todos na mesma semana ou todos na mesma escolinha maternal, pode ser muito sério. Mas se foram 3 casos na Região de Rondonópolis nos últimos 5 anos, o significado talvez não seja grande. Muitas vezes, porém, a apresentação em números absolutos pode ter o seu valor. Ex: a recente epidemia de dengue mostrou como o número de casos novos da doença aumentou rapidamente de 5 por semana a 20, depois 50 casos até centenas de casos por semana. Ex: óbitos por febre amarela no Rio de Janeiro (adaptado de Oswaldo Cruz apud Pereira) Ano óbitos ano óbitos.

Imagem3.png

 Foi possível verificar que medidas saneadoras tomadas no final do século XIX conseguiram controlar a epidemia.

 

Frequência relativa (Exemplo)

 

Facilita as comparações e interpretações. Ex: Os óbitos por febre amarela no Rio de Janeiro podem ser mostrados ainda de 3 maneiras:

 

a)    relação à população: número de pessoas falecidas num dado ano entre os que residiam na cidade nesse ano. Essa forma é o coeficiente ou taxa.

b)    em relação ao total de óbitos: é a proporção de óbitos por febre amarela na mortalidade geral.

c)    relação a um outro evento: mortes por febre amarela em relação às mortes por cólera.

 

ATENÇÃO: somente a situação A – o coeficiente – é que informa o risco de ocorrer um evento. Nesse caso, de uma pessoa residente no Rio de Janeiro morrer de febre amarela. MUITO CUIDADO com as situações B e C, chamadas de índices. Essas frequências devem ser interpretadas cautelosamente. O aumento ano a ano, por exemplo, da mortalidade proporcional por doenças cardiovasculares pode ser devido simplesmente ao fato de óbitos por outras causas estarem diminuindo mais rapidamente que esses.

dddddddddddddd.png

4. INDICADORES DE SAÚDE

 

Os indicadores de saúde são frequências relativas compostas por um numerador e um denominador que fornecem informações relevantes sobre determinados atributos e dimensões relacionados às condições de vida da população e ao desempenho do sistema de saúde (MEDRONHO; BOCH,  2009).

A qualidade dos indicadores de saúde vai depender da sua validade (capacidade de medir o que se pretende); confiabilidade (reprodutibilidade), mensurabilidade, relevância e custo-efetividade.

Para que sejam efetivamente utilizados, os indicadores precisam ser organizados, atualizados, disponibilizados e comparados com outros indicadores. No planejamento local, podem estar voltados para o interesse específico da unidade de saúde que vai utilizá-los. Quem melhor define os indicadores são os profissionais de saúde, a população e os gestores diretamente envolvidos no processo de trabalho.

 

EXEMPLOS DE INDICADORES DA SAÚDE 

 

  • Coeficiente de mortalidade geral

  • Coeficiente de mortalidade infantil

  • Coeficiente de mortalidade perinatal

  • Coeficiente de mortalidade materna

  • Razão de mortalidade proporcional

  • Curva de mortalidade proporcional

  • Coeficiente de mortalidade por doenças transmissíveis

  • Coeficiente de natalidade geral

  • Coeficiente geral de fecundidade

 

Durante muito tempo foi essa lógica reducionista, de pensar que bastava o atendimento clínico, que predominou nos serviços de saúde do Brasil, mas ela já está sendo mudada.

As Unidades de Saúde e seus profissionais já não podem apenas esperar passivamente a demanda de pessoas batendo na porta em busca de assistência a um problema individual. É necessário que as equipes de saúde conheçam o perfil epidemiológico da população adscrita, isto é, de que ela adoece, quais as principais queixas que a leva à Unidade de Saúde, de que ela morre, por quais motivos é internada, quais são os principais fatores determinantes das doenças na população, etc. Além disso, precisa saber qual é a sua composição etária, quantas crianças nascem e até quantos anos vivem em média.

Todas essas informações permitirão que a Equipe de Saúde da Família e a equipe NASF planejem com antecedência como organizará o serviço de saúde para atender as queixas mais comuns das pessoas e, melhor, poderá pensar em estratégias para impedir que problemas de saúde evitáveis ocorram. Por fim, se a equipe dispuser dessas informações ao longo do tempo, poderá, inclusive, avaliar se as ações que está desempenhando são efetivas.

Por exemplo, suponha que em determinado bairro a Equipe de Saúde da Família, em conjunto com profissionais do NASF, verificou que o indicador de mortalidade infantil foi muito alto em 2010. Depois de algumas reuniões e ao analisar outros dados, decidiu que algumas ações eram necessárias para reduzir, em 2011, o óbito de crianças menores de 1 ano.

REFERÊNCIAS 

  • MEDRONHO R.A.; BOCH, K.V. Epidemiologia. 2ª ed. São Paulo: Atheneu, 2009.

  • ROUQUAYROL, M. Z.; ALMEIDA FILHO, N. Epidemiologia & saúde. 7. ed. Rio de Janeiro: MEDSI, 2013

  • Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Ciências da Saúde. Curso de Especialização Multiprofissional na Atenção Básica. Epidemiologia [Recurso eletrônico] / Universidade Federal de Santa Catarina; Antônio Fernando Boing; Eleonora D’Orsi; Calvino Reibnitz Júnior – Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2013, p. 95. https://unasus.ufsc.br/atencaobasica/files/2017/10/ Epidemiologia-ilovepdf-compressed.pdf.